sábado, 4 de setembro de 2010

Só um sonho

Tudo o que você vê é um teto desconhecido, você mexe a cabeça e percebe que não conhece este lugar. Mas não está apavorado, ou nada assim, você sabe, ou pensa, é um sonho.

Você se cansa da pouca visão que tem deitado, e se levanta, analisando o local em que está. É escuro, com abajures de cor vermelho alaranjado, a mobília do século passado combina com o ambiente em si, fosco e tingido pelo marrom desbotado. Parece até uma fotografia antiga. Mas, é claro, é tudo confortável. Você não deixa de reparar que neste aparente quarto, que possui uma cama ampla, existem objetos, enfeites, de ouro e de valor, pinturas, castiçais, vasos, estatuetas. Quem seja que vive nesta casa é endinheirado.

Assim que o local ficou decorado em sua mente, decide ir para o próximo cômodo. Percebe que tem uma sala, logo ali. Vê sombras de fogo, provavelmente uma lareira. É atraído pela curiosidade, pois se tiver alguém aqui, este alguém estaria à beira da lareira.

Você vê uma mulher, esticada, charmosa, com feições atrativas, cabelos pretos sedosos e compridos, e um sorriso sabido nos lábios, embrulhada em um vestido vermelho. Ela está sentada em uma poltrona, que se ajusta ao resto da casa, com as pernas cruzadas, segurando uma taça, contendo um líquido escuro; vinho, talvez. Ela te convida a sentar ao sofá a sua frente, com um gesto suave com a mão.

Sem tirar os olhos dos delas, você se senta, e mais uma vez, tomado pela curiosidade, pergunta:

-Quem é você?

Ela passa a mão no cabelo, sem bagunçá-lo e nem ajeitá-lo. Mostra-se pensativa, mas não pensa, tem a resposta na ponta da língua antes mesmo da pergunta.

-Eu sou tudo o que você quer – ela afirma segura de si. Por mais que parecesse exagerado, você acredita, afinal, ela está em seu sonho.

Você sorri. Ela lhe oferece o que está em sua taça, e você aceita. Antes de experimentar, você decide fazer mais perguntas:

-O que eu faço aqui?

-Veio me ver – ela responde dessa vez sem enrolar.

-Por quê? – você imagina a resposta, mas pergunta mesmo assim, quer ouvir da bela mulher, quer apreciar sua voz sedutora.

-Para que eu possa te tirar de todo estresse, trabalho duro e amolação – responde, e você só consegue reparar em seus lábios carnudos, pintados de vermelho, movendo-se lentamente explicando o que você quer ouvir. Ela levanta e anda suavemente até você, mostrando suas pernas grossas, expostas. A mulher recomeça a dizer mais baixo, atraindo você – Pra te dar prazer.

Você engole sua saliva em abundância. E agradece mentalmente não precisar responder. Ela sorri e senta em seu colo, pousando a mão em seu peito, acariciando. Antes de olhar para seu rosto mais uma vez, percebe seus peitos fartos. A mulher se curva e pressiona os lábios cheios nos seus. Você corresponde ao contato, desejando, precisando que isso se aprofundasse.

Ela se afasta um instante e indica a taça em suas mãos; até tinha esquecido. Experimenta o líquido e se da conta de que não era vinho; esse tem um gosto salgado e enferrujado. Você fez uma careta, fechando os olhos, pelo gosto expandindo em sua boca.

Quando abre os olhos novamente, está tudo distorcido. Tudo está mais escuro, e as chamas não estão contidas na lareira, estão espalhadas por todo lado, mas nenhuma te queima. Os objetos de valor derretem, se mostrando falsos. A linda mulher se foi, em seu lugar há uma besta sangrenta, com o mesmo sorriso, agora identificado como sínico. Você compreende o que acaba de acontecer e pânico enche seu peito, enquanto a besta vermelha se aproxima.

Você grita pra se livrar do terror apertando seu coração. Em meio ao som agudo tudo desaparece; tudo está escuro e não há fogo.

Foi só um sonho, você pensa. E você está aliviado acreditando que foi só um sonho. Seu tolo.

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