
-Eu te amo – sua voz suave soou contra meu peito nu. Eu ouvia sua voz dizer tais palavras pela milésima vez. Meu estômago reagiu naturalmente, formigas correram por ele.
Sentia sua mão apoiar-se em minha barriga para poder levantar. Eu a observei. Seus olhos estavam tremendo, fingindo, seus lábios tortos em um falso sorriso. Ela simplesmente não conseguia disfarçar tristeza. Eu pude sentir sua dor. Sim, dor, por simplesmente não dizer-lhe as três palavras de volta. Pode parecer banal, mas eu a compreendia.
Depois de cinco anos, quase seis, junto com uma pessoa, ouvindo-a dizer sinceramente que te ama, você deveria dizer o mesmo, principalmente se você sente o mesmo. Eu simplesmente não conseguia. Antes dela havia prometido a mim mesmo que nunca diria isso. Até hoje cumpri, e mesmo sabendo que ela valia quebrar a promessa, eu simplesmente não conseguia.
Suspirei ignorando a dor em meu peito. Seus olhos vacilaram em se manter atuando, eles murcharam e pude ver várias lágrimas se formando, uma a uma escorrendo por seu belo rosto. E eu sabia exatamente o que viria a seguir. Nós brigaríamos.
E foi isso o que aconteceu. Por mais que eu soubesse que a culpa era minha, meu orgulho era como pedra. Eu fechava o punho e discutia de volta. Jamais deixaria que gritassem em meu rosto e saíssem ilesos, eu gritaria de volta e usaria de qualquer lembrança para irritar, magoar ou até humilhar. Outro defeito meu. Eu não era especial, e como qualquer outro eu possuía várias falhas.
Como sempre ela saiu batendo a porta. Eu não fui atrás pelo orgulho, pelo costume... Ela sairia com alguma amiga e aproveitaria a noite esquecendo por algumas horas o traste que deixou em casa, até que o álcool ingerido derrubasse a máscara e lágrimas cobrissem seu rosto molhando o ombro da amiga.
Eu sentei no sofá com uma garrafa de vodka na mão, um cigarro na outra. Nesse roteiro decorado eu me embebedaria, fumaria maços até que ela voltasse com olhos inchados, cheirando bebida, cigarro e, diferente de mim, perfumes de outras pessoas. Eu não a culparia (até que tivéssemos outra briga), eu sabia absolutamente que a culpa era minha, e apenas minha. Ela dormiria em meus braços, e acordaríamos juntos não mais brigados, e minha camiseta possivelmente estaria úmida por mais um choro seu antes de adormecer.
Nesta noite algo quebrou a rotina. Eu adormeci no sofá duro esperando por ela, sem me preocupar com sua inesperada demora, por culpa da embriaguez. Meu celular vibrou ao meu lado, eu senti insuficientemente para me acordar do quase coma alcoólico, até que caiu no chão, me tirando do sono com um susto pelo barulho. Praguejei, mas atendi:
-Alo? – tentei soar o mais normal e sóbrio possível.
-Ela sofreu um acidente – uma voz familiar, provavelmente de alguma amiga dela, ecoou através do aparelho. De imediato não compreendi as palavras, mas meu peito se contraiu, porque ele pensava mais rápido que meu cérebro cheio de bebida.
Em questão de minutos eu estava em um táxi, pedindo ao motorista que se apressasse. Ele rolou os olhos achando ridícula a pressa de um homem fedendo a vodka para chegar ao hospital. Eu não me importei, até porque se eu não me conhecesse acharia o mesmo que ele.
Quando estacionou, joguei-lhe algumas notas suficientes para pagar a carona e corri cambaleante para dentro do estabelecimento. Mesmo confuso soube chegar rapidamente ao seu quarto. Entrei sem hesitar, apesar do medo do que poderia encontrar.
Lá estava ela, com feridas horríveis por todo rosto, e coberta até o pescoço com um lençol branco, ela sorriu ao me ver. Culpa e mais uns trezentos sentimentos correram pelo meu corpo, deixando-me mole e trêmulo. Aproximei-me e sorri, sem ao menos tentar deixar meus olhos felizes.
-Eu sinto muito – ela murmurou com dificuldade. Senti uma pontada no peito. Mais culpa e um pouco de raiva, ela sempre foi uma idiota neste sentido.
-Shh – tentei silenciá-la. Ela não deveria dizer nada. Com extrema delicadeza coloquei a mão em seu rosto, ternamente, sem acariciar temendo que a machucasse mais. Lágrimas ameaçaram saltar de meus olhos, mas eu tentei ser positivo.
Havia um médico no quarto, eu só o notei quando me chamou para o corredor. Querendo saber sobre o que era, sai devagar do quarto, deixando um “volto logo” sussurrado em seu ouvido.
O homem de jaleco disse coisas como “não conter a hemorragia”, coisas que não pude entender, mas que em geral significava que ela não sobreviveria muito mais tempo. Eu quis gritar com ele, mas a tristeza era tanta que foi uma vontade passageira.
Voltei para o quarto no segundo seguinte, sentei-me ao lado dela, segurando sua mão cheia de manchas roxas. Sussurrava em seu ouvido coisas que nunca havia dito, quando ela ameaçava fechar os olhos e dormir eu pedia para que agüentasse mais. Era um absurdo, mas eu podia ser muito egoísta, eu queria aproveitá-la como nunca. Era idiotice minha só se dar conta disso em seus últimos momentos, mas agora era só o que eu podia fazer.
Pedi desculpas por tudo, contei a ela o que ela sempre soube que eu era um imbecil. Mas eu não achei que isso seria muito útil, então apenas mais uma vez disse que estava arrependido.
Mais uns minutos ela disse quase sem voz que estava muito cansada e queria dormir. Eu sabia que não acordaria mais, mas eu não tive coragem de lhe dizer, e não tive capacidade de negar a ela, mas antes eu diria palavras suaves.
-Boa noite, você terá ótimos sonhos – comecei dizer entre soluços, minhas lágrimas não se freavam mais. Beijei-lhe a testa, e com toda a vontade finalizei a sentença com o que guardei por tanto tempo – Eu te amo muito.
Ela havia fechado os olhos há algum tempo, mas eu estava esperançoso de que ela tivesse ouvido pelo menos uma vez tudo o que ela merecia de mim. Em segundos, que pareciam séculos, a vi indo embora na minha frente.
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