sábado, 25 de setembro de 2010

Na praça

Existia um lugar onde sempre via uma pessoa que gostava de observar. Sabia de tudo sobre ela: namoro, família, trabalho. Tudo. Eu a conheci há dez anos nessa mesma praça. Eu estava tentando brincar na gangorra sozinho, e com todo o seu carinho e compreensão ela veio até mim e brincamos juntos. Foi a primeira e única vez que falei com ela.

Seu nome é Amabile Muller, tem dezessete anos, assim como eu. É alta, longos cabelos pretos, sua pele é alva, exceto pelas maçãs de seu rosto que são rosadas, sempre teve cílios escuros e cumpridos, a partir de quatorze anos começou a maquiar-se, deixando seus olhos realçados, delineados, linda de um forma que não sabia que era possível. Em sua vida teve muitos colegas, cada ano uns dez diferentes, mas amigos eram apenas dois desde os sete anos. Nunca namorou sério, já gostou de algumas pessoas, mas não durava. Seus pais são separados, tem um irmão mais novo e uma irmã por parte de pai. Amabile estuda na mesma escola que eu (suas notas são regulares), mas o melhor lugar para olhá-la é nessa praça onde ela brinca com as crianças que cuida como babá.

Sempre a vi como alguém tão especial que eu não poderia sequer tocar, era quase um pecado a olhar tanto, mas era uma grande tentação. Eu a amo, e a adoro no verdadeiro sentido da palavra; adorar, idolatrar.

Sonho com o dia em que Ela decida falar comigo de novo, um mero menino, porém parece que com o tempo isso fica mais difícil de acontecer. Ultimamente, reparo que Amabile está mais ocupada. Quando aparece aqui, fica distraída e vai embora cedo, muitas vezes, segura seu celular, ansiosa, por uma ligação.

Sei que é porque ela começou andar com um pecador. Um menino qualquer que acha que pode falar com ela. E não pode. Pessoas comuns não deviam se achar nesse direito. Mas ela gosta dele, isso me incomoda, no entanto, não vou interferir em suas decisões.

Hoje, Amabile está aqui com seu namorado. Discutem por um motivo bobo, mas em instantes, um está gritando com o outro. Uma fúria enche meu interior. A cada grito dele eu tenho vontade de matá-lo. A discussão acaba, ele a empurra e vai embora. Ela fica parada por alguns minutos e senta no chão, acabada, chorando.

Eu nunca ousei interferir em sua vida, mas isso era inaceitável.

Sigo o menino e assim que posso o jogo em um beco. Então, já não posso mais me controlar, com o que encontro, talvez um pedaço de madeira, começo a bater em sua cabeça gritando coisas que nem mesmo eu entendo. Só sei que ele deve morrer.

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