Eu podia dizer claramente, e sem ofender, que aquele lugar era horrível. Sem ofender pelo simples fato de que era verdade. O sofá era todo aberto, podia se ver as tábuas do esqueleto do móvel, as espumas finas e desgastadas saiam por todos os lados, as cômodas eram de uma madeira pobre, cheia de cupins e as gavetas emperravam, a luz era tão fraca que poderia tropeçar em uma mesa sem percebê-la, e as paredes eram manchadas, provavelmente por vazamentos de canos, tornando-as fracas.Porém no meio de todo aquele horror, havia algo que iluminava cada parte do ambiente miserável; uma foto. O porta-retrato que a mantinha a vista era ruim como todo o resto, mas não diminuía o valor daquela imagem. Era uma garota pequena, magricela, com roupas deploráveis e grandes demais para seu corpo frágil, um cabelo ruivo e espetado servia como moldura para seu rosto pálido e sorridente, cheio de sardas. Seus olhos eram alegres, como só uma criança podia ter.
Eu peguei aquele retrato, imaginando quantos anos antes de eu a conhecer aquela foto foi tirada, meus olhos se umedeceram e meu coração se encheu de uma saudade de algo que não tive. Nunca vi tal brilho naquele olhar, apesar de admirar aqueles olhos, agora amadurecidos, todos os dias.
Falando neles, a dona deles entrou no cômodo e sorriu triste quando viu o retrato em minhas mãos. Ela tinha mais direito que eu de sentir saudade daquilo. Tocou no rosto da imagem com a ponta dos dedos, com uma delicadeza desnecessária e suspirou. A ruiva não precisava sequer abrir a boca pra se expressar, eu soube que a falta daquela inocência era o maior sentimento no momento, o resto foi esquecido por instantes.
Seu momento de fraqueza acabou quando arrancou o objeto de minhas mãos e o colocou de volta na estante estragada. Olhou-me com um ar de raiva e comédia de um jeito que só ela conseguia fazer, e nem sei ao certo o porquê. Saiu de sua própria moradia, sem me chamar, sabendo que eu iria atrás.
Certa vez eu a vi com seus olhos vermelhos, com as pálpebras inchadas, mas Anita tem uma fortaleza, erguida em sua volta, que a impedia severamente de demonstrar sentimentos fracos para qualquer ser racional, incluindo eu. Sequer uma lágrima escorreu de seus olhos, apesar de estarem mais brilhantes que o normal, cheios de água. Não me contou o que havia acontecido, no entanto as marcas roxas pelo seu corpo, e um corte rasgado em seu lábio rosado não escondiam a verdade.
Ela tinha seus problemas, e queria resolvê-los, mas era ousadia demais, intrometendo-me na vida dela, porque eu sabia que eu não fazia parte de seu mundo tanto quanto ela do meu. Esperava o momento certo em que eu pudesse chamá-la para viver comigo, sob meu teto, que era de longe melhor do que o dela, e mesmo assim não tem mais que o necessário.
Eu soube que o momento certo chegou um bom tempo depois, quando não agüentava mais a ver cada vez mais acabada. Anita já era magra, mas teve épocas que os ossos saltavam, queriam sair de sua pele, enquanto ficava toda marcada. Nesta vez foi ao extremo.
A menina apareceu em minha casa por volta das três da madrugada. Entrou em casa sem falar qualquer coisa, estava com a cabeça abaixada. Tropeçou em seus próprios pés, caindo de joelhos, e colocou as mãos no rosto, sua respiração pesava. Não estava bêbada, sim cansada, exausta.
Fiquei sem reação, não podia ajudá-la enquanto não permitisse. Prova disso foi quando dei um passo em sua direção e sua resposta foi uma mão erguida com a palma à mostra. Manteve-se naquele estado por vários minutos, enfim ela se levantou e deitou-se no sofá, ainda sem falar. Anita olhou-me por um segundo, com um sorriso nos lábios e os olhos estreitos, então os fechou para dormir.
Sua maquiagem carregada estava desmanchada, havia traços pretos em suas bochechas e em volta de sua boca estava avermelhado. Sinal de que tinha chorado, em minha frente. Mesmo não vendo, foi a primeira vez que mostrou sua tristeza, sem mascara nenhuma.
Enquanto tomávamos café da manhã, eu ofereci para que ficasse de vez. Ela riu, e em algum ponto da conversa, aceitou, e quando fomos pegar algumas coisas em sua casa, eu roubei aquela fotografia.

