quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Eu podia dizer claramente, e sem ofender, que aquele lugar era horrível. Sem ofender pelo simples fato de que era verdade. O sofá era todo aberto, podia se ver as tábuas do esqueleto do móvel, as espumas finas e desgastadas saiam por todos os lados, as cômodas eram de uma madeira pobre, cheia de cupins e as gavetas emperravam, a luz era tão fraca que poderia tropeçar em uma mesa sem percebê-la, e as paredes eram manchadas, provavelmente por vazamentos de canos, tornando-as fracas.
Porém no meio de todo aquele horror, havia algo que iluminava cada parte do ambiente miserável; uma foto. O porta-retrato que a mantinha a vista era ruim como todo o resto, mas não diminuía o valor daquela imagem. Era uma garota pequena, magricela, com roupas deploráveis e grandes demais para seu corpo frágil, um cabelo ruivo e espetado servia como moldura para seu rosto pálido e sorridente, cheio de sardas. Seus olhos eram alegres, como só uma criança podia ter.

Eu peguei aquele retrato, imaginando quantos anos antes de eu a conhecer aquela foto foi tirada, meus olhos se umedeceram e meu coração se encheu de uma saudade de algo que não tive. Nunca vi tal brilho naquele olhar, apesar de admirar aqueles olhos, agora amadurecidos, todos os dias.
Falando neles, a dona deles entrou no cômodo e sorriu triste quando viu o retrato em minhas mãos. Ela tinha mais direito que eu de sentir saudade daquilo. Tocou no rosto da imagem com a ponta dos dedos, com uma delicadeza desnecessária e suspirou. A ruiva não precisava sequer abrir a boca pra se expressar, eu soube que a falta daquela inocência era o maior sentimento no momento, o resto foi esquecido por instantes.
Seu momento de fraqueza acabou quando arrancou o objeto de minhas mãos e o colocou de volta na estante estragada. Olhou-me com um ar de raiva e comédia de um jeito que só ela conseguia fazer, e nem sei ao certo o porquê. Saiu de sua própria moradia, sem me chamar, sabendo que eu iria atrás.


Certa vez eu a vi com seus olhos vermelhos, com as pálpebras inchadas, mas Anita tem uma fortaleza, erguida em sua volta, que a impedia severamente de demonstrar sentimentos fracos para qualquer ser racional, incluindo eu. Sequer uma lágrima escorreu de seus olhos, apesar de estarem mais brilhantes que o normal, cheios de água. Não me contou o que havia acontecido, no entanto as marcas roxas pelo seu corpo, e um corte rasgado em seu lábio rosado não escondiam a verdade.
Ela tinha seus problemas, e queria resolvê-los, mas era ousadia demais, intrometendo-me na vida dela, porque eu sabia que eu não fazia parte de seu mundo tanto quanto ela do meu. Esperava o momento certo em que eu pudesse chamá-la para viver comigo, sob meu teto, que era de longe melhor do que o dela, e mesmo assim não tem mais que o necessário.
Eu soube que o momento certo chegou um bom tempo depois, quando não agüentava mais a ver cada vez mais acabada. Anita já era magra, mas teve épocas que os ossos saltavam, queriam sair de sua pele, enquanto ficava toda marcada. Nesta vez foi ao extremo.
A menina apareceu em minha casa por volta das três da madrugada. Entrou em casa sem falar qualquer coisa, estava com a cabeça abaixada. Tropeçou em seus próprios pés, caindo de joelhos, e colocou as mãos no rosto, sua respiração pesava. Não estava bêbada, sim cansada, exausta.
Fiquei sem reação, não podia ajudá-la enquanto não permitisse. Prova disso foi quando dei um passo em sua direção e sua resposta foi uma mão erguida com a palma à mostra. Manteve-se naquele estado por vários minutos, enfim ela se levantou e deitou-se no sofá, ainda sem falar. Anita olhou-me por um segundo, com um sorriso nos lábios e os olhos estreitos, então os fechou para dormir.
Sua maquiagem carregada estava desmanchada, havia traços pretos em suas bochechas e em volta de sua boca estava avermelhado. Sinal de que tinha chorado, em minha frente. Mesmo não vendo, foi a primeira vez que mostrou sua tristeza, sem mascara nenhuma.
Enquanto tomávamos café da manhã, eu ofereci para que ficasse de vez. Ela riu, e em algum ponto da conversa, aceitou, e quando fomos pegar algumas coisas em sua casa, eu roubei aquela fotografia.

sábado, 25 de setembro de 2010

Na praça

Existia um lugar onde sempre via uma pessoa que gostava de observar. Sabia de tudo sobre ela: namoro, família, trabalho. Tudo. Eu a conheci há dez anos nessa mesma praça. Eu estava tentando brincar na gangorra sozinho, e com todo o seu carinho e compreensão ela veio até mim e brincamos juntos. Foi a primeira e única vez que falei com ela.

Seu nome é Amabile Muller, tem dezessete anos, assim como eu. É alta, longos cabelos pretos, sua pele é alva, exceto pelas maçãs de seu rosto que são rosadas, sempre teve cílios escuros e cumpridos, a partir de quatorze anos começou a maquiar-se, deixando seus olhos realçados, delineados, linda de um forma que não sabia que era possível. Em sua vida teve muitos colegas, cada ano uns dez diferentes, mas amigos eram apenas dois desde os sete anos. Nunca namorou sério, já gostou de algumas pessoas, mas não durava. Seus pais são separados, tem um irmão mais novo e uma irmã por parte de pai. Amabile estuda na mesma escola que eu (suas notas são regulares), mas o melhor lugar para olhá-la é nessa praça onde ela brinca com as crianças que cuida como babá.

Sempre a vi como alguém tão especial que eu não poderia sequer tocar, era quase um pecado a olhar tanto, mas era uma grande tentação. Eu a amo, e a adoro no verdadeiro sentido da palavra; adorar, idolatrar.

Sonho com o dia em que Ela decida falar comigo de novo, um mero menino, porém parece que com o tempo isso fica mais difícil de acontecer. Ultimamente, reparo que Amabile está mais ocupada. Quando aparece aqui, fica distraída e vai embora cedo, muitas vezes, segura seu celular, ansiosa, por uma ligação.

Sei que é porque ela começou andar com um pecador. Um menino qualquer que acha que pode falar com ela. E não pode. Pessoas comuns não deviam se achar nesse direito. Mas ela gosta dele, isso me incomoda, no entanto, não vou interferir em suas decisões.

Hoje, Amabile está aqui com seu namorado. Discutem por um motivo bobo, mas em instantes, um está gritando com o outro. Uma fúria enche meu interior. A cada grito dele eu tenho vontade de matá-lo. A discussão acaba, ele a empurra e vai embora. Ela fica parada por alguns minutos e senta no chão, acabada, chorando.

Eu nunca ousei interferir em sua vida, mas isso era inaceitável.

Sigo o menino e assim que posso o jogo em um beco. Então, já não posso mais me controlar, com o que encontro, talvez um pedaço de madeira, começo a bater em sua cabeça gritando coisas que nem mesmo eu entendo. Só sei que ele deve morrer.

terça-feira, 21 de setembro de 2010


-Eu te amo – sua voz suave soou contra meu peito nu. Eu ouvia sua voz dizer tais palavras pela milésima vez. Meu estômago reagiu naturalmente, formigas correram por ele.

Sentia sua mão apoiar-se em minha barriga para poder levantar. Eu a observei. Seus olhos estavam tremendo, fingindo, seus lábios tortos em um falso sorriso. Ela simplesmente não conseguia disfarçar tristeza. Eu pude sentir sua dor. Sim, dor, por simplesmente não dizer-lhe as três palavras de volta. Pode parecer banal, mas eu a compreendia.

Depois de cinco anos, quase seis, junto com uma pessoa, ouvindo-a dizer sinceramente que te ama, você deveria dizer o mesmo, principalmente se você sente o mesmo. Eu simplesmente não conseguia. Antes dela havia prometido a mim mesmo que nunca diria isso. Até hoje cumpri, e mesmo sabendo que ela valia quebrar a promessa, eu simplesmente não conseguia.

Suspirei ignorando a dor em meu peito. Seus olhos vacilaram em se manter atuando, eles murcharam e pude ver várias lágrimas se formando, uma a uma escorrendo por seu belo rosto. E eu sabia exatamente o que viria a seguir. Nós brigaríamos.

E foi isso o que aconteceu. Por mais que eu soubesse que a culpa era minha, meu orgulho era como pedra. Eu fechava o punho e discutia de volta. Jamais deixaria que gritassem em meu rosto e saíssem ilesos, eu gritaria de volta e usaria de qualquer lembrança para irritar, magoar ou até humilhar. Outro defeito meu. Eu não era especial, e como qualquer outro eu possuía várias falhas.

Como sempre ela saiu batendo a porta. Eu não fui atrás pelo orgulho, pelo costume... Ela sairia com alguma amiga e aproveitaria a noite esquecendo por algumas horas o traste que deixou em casa, até que o álcool ingerido derrubasse a máscara e lágrimas cobrissem seu rosto molhando o ombro da amiga.

Eu sentei no sofá com uma garrafa de vodka na mão, um cigarro na outra. Nesse roteiro decorado eu me embebedaria, fumaria maços até que ela voltasse com olhos inchados, cheirando bebida, cigarro e, diferente de mim, perfumes de outras pessoas. Eu não a culparia (até que tivéssemos outra briga), eu sabia absolutamente que a culpa era minha, e apenas minha. Ela dormiria em meus braços, e acordaríamos juntos não mais brigados, e minha camiseta possivelmente estaria úmida por mais um choro seu antes de adormecer.

Nesta noite algo quebrou a rotina. Eu adormeci no sofá duro esperando por ela, sem me preocupar com sua inesperada demora, por culpa da embriaguez. Meu celular vibrou ao meu lado, eu senti insuficientemente para me acordar do quase coma alcoólico, até que caiu no chão, me tirando do sono com um susto pelo barulho. Praguejei, mas atendi:

-Alo? – tentei soar o mais normal e sóbrio possível.

-Ela sofreu um acidente – uma voz familiar, provavelmente de alguma amiga dela, ecoou através do aparelho. De imediato não compreendi as palavras, mas meu peito se contraiu, porque ele pensava mais rápido que meu cérebro cheio de bebida.

Em questão de minutos eu estava em um táxi, pedindo ao motorista que se apressasse. Ele rolou os olhos achando ridícula a pressa de um homem fedendo a vodka para chegar ao hospital. Eu não me importei, até porque se eu não me conhecesse acharia o mesmo que ele.

Quando estacionou, joguei-lhe algumas notas suficientes para pagar a carona e corri cambaleante para dentro do estabelecimento. Mesmo confuso soube chegar rapidamente ao seu quarto. Entrei sem hesitar, apesar do medo do que poderia encontrar.

Lá estava ela, com feridas horríveis por todo rosto, e coberta até o pescoço com um lençol branco, ela sorriu ao me ver. Culpa e mais uns trezentos sentimentos correram pelo meu corpo, deixando-me mole e trêmulo. Aproximei-me e sorri, sem ao menos tentar deixar meus olhos felizes.

-Eu sinto muito – ela murmurou com dificuldade. Senti uma pontada no peito. Mais culpa e um pouco de raiva, ela sempre foi uma idiota neste sentido.

-Shh – tentei silenciá-la. Ela não deveria dizer nada. Com extrema delicadeza coloquei a mão em seu rosto, ternamente, sem acariciar temendo que a machucasse mais. Lágrimas ameaçaram saltar de meus olhos, mas eu tentei ser positivo.

Havia um médico no quarto, eu só o notei quando me chamou para o corredor. Querendo saber sobre o que era, sai devagar do quarto, deixando um “volto logo” sussurrado em seu ouvido.

O homem de jaleco disse coisas como “não conter a hemorragia”, coisas que não pude entender, mas que em geral significava que ela não sobreviveria muito mais tempo. Eu quis gritar com ele, mas a tristeza era tanta que foi uma vontade passageira.

Voltei para o quarto no segundo seguinte, sentei-me ao lado dela, segurando sua mão cheia de manchas roxas. Sussurrava em seu ouvido coisas que nunca havia dito, quando ela ameaçava fechar os olhos e dormir eu pedia para que agüentasse mais. Era um absurdo, mas eu podia ser muito egoísta, eu queria aproveitá-la como nunca. Era idiotice minha só se dar conta disso em seus últimos momentos, mas agora era só o que eu podia fazer.

Pedi desculpas por tudo, contei a ela o que ela sempre soube que eu era um imbecil. Mas eu não achei que isso seria muito útil, então apenas mais uma vez disse que estava arrependido.

Mais uns minutos ela disse quase sem voz que estava muito cansada e queria dormir. Eu sabia que não acordaria mais, mas eu não tive coragem de lhe dizer, e não tive capacidade de negar a ela, mas antes eu diria palavras suaves.

-Boa noite, você terá ótimos sonhos – comecei dizer entre soluços, minhas lágrimas não se freavam mais. Beijei-lhe a testa, e com toda a vontade finalizei a sentença com o que guardei por tanto tempo – Eu te amo muito.

Ela havia fechado os olhos há algum tempo, mas eu estava esperançoso de que ela tivesse ouvido pelo menos uma vez tudo o que ela merecia de mim. Em segundos, que pareciam séculos, a vi indo embora na minha frente.

sábado, 4 de setembro de 2010

Só um sonho

Tudo o que você vê é um teto desconhecido, você mexe a cabeça e percebe que não conhece este lugar. Mas não está apavorado, ou nada assim, você sabe, ou pensa, é um sonho.

Você se cansa da pouca visão que tem deitado, e se levanta, analisando o local em que está. É escuro, com abajures de cor vermelho alaranjado, a mobília do século passado combina com o ambiente em si, fosco e tingido pelo marrom desbotado. Parece até uma fotografia antiga. Mas, é claro, é tudo confortável. Você não deixa de reparar que neste aparente quarto, que possui uma cama ampla, existem objetos, enfeites, de ouro e de valor, pinturas, castiçais, vasos, estatuetas. Quem seja que vive nesta casa é endinheirado.

Assim que o local ficou decorado em sua mente, decide ir para o próximo cômodo. Percebe que tem uma sala, logo ali. Vê sombras de fogo, provavelmente uma lareira. É atraído pela curiosidade, pois se tiver alguém aqui, este alguém estaria à beira da lareira.

Você vê uma mulher, esticada, charmosa, com feições atrativas, cabelos pretos sedosos e compridos, e um sorriso sabido nos lábios, embrulhada em um vestido vermelho. Ela está sentada em uma poltrona, que se ajusta ao resto da casa, com as pernas cruzadas, segurando uma taça, contendo um líquido escuro; vinho, talvez. Ela te convida a sentar ao sofá a sua frente, com um gesto suave com a mão.

Sem tirar os olhos dos delas, você se senta, e mais uma vez, tomado pela curiosidade, pergunta:

-Quem é você?

Ela passa a mão no cabelo, sem bagunçá-lo e nem ajeitá-lo. Mostra-se pensativa, mas não pensa, tem a resposta na ponta da língua antes mesmo da pergunta.

-Eu sou tudo o que você quer – ela afirma segura de si. Por mais que parecesse exagerado, você acredita, afinal, ela está em seu sonho.

Você sorri. Ela lhe oferece o que está em sua taça, e você aceita. Antes de experimentar, você decide fazer mais perguntas:

-O que eu faço aqui?

-Veio me ver – ela responde dessa vez sem enrolar.

-Por quê? – você imagina a resposta, mas pergunta mesmo assim, quer ouvir da bela mulher, quer apreciar sua voz sedutora.

-Para que eu possa te tirar de todo estresse, trabalho duro e amolação – responde, e você só consegue reparar em seus lábios carnudos, pintados de vermelho, movendo-se lentamente explicando o que você quer ouvir. Ela levanta e anda suavemente até você, mostrando suas pernas grossas, expostas. A mulher recomeça a dizer mais baixo, atraindo você – Pra te dar prazer.

Você engole sua saliva em abundância. E agradece mentalmente não precisar responder. Ela sorri e senta em seu colo, pousando a mão em seu peito, acariciando. Antes de olhar para seu rosto mais uma vez, percebe seus peitos fartos. A mulher se curva e pressiona os lábios cheios nos seus. Você corresponde ao contato, desejando, precisando que isso se aprofundasse.

Ela se afasta um instante e indica a taça em suas mãos; até tinha esquecido. Experimenta o líquido e se da conta de que não era vinho; esse tem um gosto salgado e enferrujado. Você fez uma careta, fechando os olhos, pelo gosto expandindo em sua boca.

Quando abre os olhos novamente, está tudo distorcido. Tudo está mais escuro, e as chamas não estão contidas na lareira, estão espalhadas por todo lado, mas nenhuma te queima. Os objetos de valor derretem, se mostrando falsos. A linda mulher se foi, em seu lugar há uma besta sangrenta, com o mesmo sorriso, agora identificado como sínico. Você compreende o que acaba de acontecer e pânico enche seu peito, enquanto a besta vermelha se aproxima.

Você grita pra se livrar do terror apertando seu coração. Em meio ao som agudo tudo desaparece; tudo está escuro e não há fogo.

Foi só um sonho, você pensa. E você está aliviado acreditando que foi só um sonho. Seu tolo.